Posts

Quarta-feira, 04 de Abril de 2007
Hoje despertei com um ardor na garganta. O primeiro palpite foi para a tosse. Como qualquer ser humano engripado, eu sentia este ardor na garganta que parecia nunca aliviar. Talvez bebendo um pouco de água… por isso alcancei a garrafa de água mais próxima e bebi. Senti o corpo ligeiramente revitalizado, mas não muito alterado. Descobri que era sede. Mas não a sede que nos faz ter a garganta seca e sentir o corpo desidratado. Não, não era sede de água, era sede de outra coisa muito mais essencial, que é muito mais importante para mim do que a água. Que me faz não só sobreviver, mas também viver.
Cuidadosamente removi os cobertores que durante a noite me aqueceram o corpo, mas que agora me faziam ter calor. Tirei os meus pés da cama e assentei-os no chão. Agora estava sentado… a pensar. A pensar em ti, meu amor. Levantei-me e desloquei-me até ao espelho da casa de banho, e olhei atentamente para os meus próprios olhos.
A sede que me matava não era de modo nenhum de água, mas era sede de algo que nos entra pelo corpo adentro e se aloja nos nossos corações, que batem então com mais vigor. Era sede de ti, princesa, era sede do teu amor e da tua paixão. Era a sede que não era material, que não consistia em satisfazer nenhuma necessidade do nosso corpo, mas sim da nossa alma. Senti um breve arrepio, que levantou na minha pele pequenos corpos aos quais carinhosamente chamamos pele de galinha.
Afinal, não era só esta sede que me matava. Sentia-me com cada vez mais frio, por isso liguei a água quente da torneira. Molhava as minhas mãos naquela água que parecia nem estar morna, pois não me aquecia. Permanecia igual, com o mesmo frio, apesar da água estar quente, o que apenas descobri por ter reparado no seu vapor que rapidamente embaciava o espelho. Cada vez me via menos.
Coloquei graciosamente a minha mão direita sobre o meu ombro esquerdo, e a minha mão esquerda sobre o meu ombro direito. Apertei com força na necessidade de sentir um abraço teu. A tua cara meiga e linda, perfeita, não estava à frente da minha. Não te podia beijar. O teu corpo esbelto, belo e quente, perfeito, também não estava nos meus braços. Ainda assim apertava-me com cada vez mais força. Preferia que fossem os teus braços que me estivessem a apertar daquele modo. Não era possível.
Contudo, tu estás sempre dentro de mim. Por isso, não me largava. E continuava a apertar, a apertar… e esta sensação incomparável a um abraço teu incrivelmente sabia bem.
Larguei-me, e levei quatro mãos daquela água à cara. Agora já era impossível ver-me no espelho. Já estava totalmente embaciado. Não conseguia de modo algum matar esta sede que me matava, nem este frio que também me fazia sentir menos vivo. Esta sensação única de me faltar algo dentro de mim, principalmente sob o meu mamilo esquerdo, invadia-me. Ela tinha nome. Esta sede e este frio tinham um nome, e eu sabia-o.
Ergui o meu braço direito, e, fazendo sair do meu punho o meu dedo indicador, rasguei manchas de vapor que cobriam o espelho, e rigorosamente escrevi as letras que formavam o nome desta sensação: S A U D A D E.
publicado por Paulo Zhan às 23:50